“O fascismo foi a grande inovação política do século XX, e também a origem de boa parte de seus sofrimentos. As demais grandes correntes da cultura política do Ocidente moderno – o conservadorismo, o liberalismo e o socialismo – atingiram forma madura entre fins do século XVIII e meados do século XIX. Na década de 1890, contudo, o fascismo não havia ainda sido imaginado.”(pg.:13)
A surpresa que encontramos no fascismo, foi a inesperada combinação de uma ditadura antiesquerdista cercada de entusiasmo popular, uma surpresa consolidada no curto espaço de tempo de um ano.
O fascismo como conhecemos, nasceu em Milão, em um domingo, 23 de março de 1919, um pouco mais de cem pessoas encontravam-se na sala de reunião da Aliança Industrial e Comercial de Milão, para declarar guerra ao socialismo em razão deste ter-se oposto ao nacionalismo.O programa fascista, era uma estranha mistura de patriotismo de veteranos e de experimento social radical, criando um tipo de nacional-socialismo.
Mussolini não se restringia aos ataques à propriedade, choviam atos de violência contra intelectuais, de rejeição a soluções de compromisso e de desprezo pela sociedade estabelecida, características comuns aos três grupos que constituíam a massa de seus primeiros seguidores que era formada por: Veteranos de guerra desmobilizados, Sindicalistas pró-guerra e Intelectuais futuristas.
Três anos depois o partido de Mussolini já ocupava o poder, onze anos mais tarde Hitler chegava ao poder na Alemanha. Em pouco tempo depois o mundo fervilhava, de aspirantes a ditadores e marchas de esquadrões que acreditavam conseguir trilhar o mesmo caminho de Hitler e Mussolini ao poder. Seis anos depois, Hitler jogava a Europa numa guerra que acabaria por tragar grande parte do mundo, antes de chegar ao fim desta guerra a humanidade sofreria não apenas as barbaridades costumeiras das guerras, desta vez ela alcança uma escala sem precedentes, com a tentativa de extinção de todo um povo.
A questão era mais profunda que a ascensão fortuita de meliantes, e mais precisa que a decadência da antiga ordem moral. Ao longo dos anos, muitas outras interpretações e definições viriam a ser propostas, mas, até hoje, mais de oitenta anos após nenhuma delas alcançou aceitação universal, como sendo uma explicação totalmente satisfatória para o fenômeno.
A imagem de ditador todo-poderoso personaliza o fascismo, criando a falsa impressão de que podemos compreendê-lo em sua totalidade examinando o líder, isoladamente. Essa imagem, cujo poder perdura até hoje, representa o derradeiro triunfo dos propagandistas do fascismo. Ela oferece um álibi às nações que aprovaram ou toleraram os líderes fascistas, desviando a atenção das pessoas, dos grupos e das instituições que lhes prestaram auxílio.
As imagens das multidões cantando hinos alimenta a suposição de que alguns povos europeus eram, por natureza, predispostos ao fascismo, e responderam a ele com entusiasmo devido a seu caráter nacional.O corolário dessa imagem é uma crença condescendente de que o fascismo foi gerado pelas mazelas da história de determinadas nações, crença essa que se converte num álibi para os países espectadores.
Uma das características marcantes do fascismo era o seu ânimo anticapitalista e antiburguês. No entanto quando os partidos chegaram ao poder, eles nada fizeram contra o capitalismo mas sim puseram em pratica com extrema violência suas ameaças contra o socialismo.
O que o fascismo criticava no capitalismo não era sua exploração, mas seu materialismo, sua indiferença para com a nação e sua incapacidade de incitar as almas. Em um nível mais profundo, eles rejeitavam a idéia de que as forças econômicas são o motor básico da história. Uma vez no poder, os regimes fascistas confiscaram propriedade apenas de seus opositores políticos, dos estrangeiros e dos judeus. Nenhum deles alterou a hierarquia social. No máximo, eles substituíram as forças de mercado pela administração econômica estatal.
Observa-se algumas mudanças profundas o suficiente para serem chamadas de revolucionárias. Em seu desenvolvimento máximo, redesenhou as fronteiras entre o privado e o público, reduzindo drasticamente aquilo que antes era intocavelmente privado. Transformou a prática da cidadania, do gozo dos direitos e deveres constitucionais à participação em cerimônias de massa de afirmação e conformidade. Reformulou as relações entre o indivíduo e a coletividade, de forma a que um indivíduo não tivesse qualquer direito externo ao interesse comunitário. Ampliou os poderes do executivo na busca pelo controle total.
O fascismo vivia uma contradição na relação com a modernização. Os primeiros movimentos fascistas exploraram os protestos das vitimas da industrialização rápida e da globalização. Mas ao chegar ao poder, os regimes fascistas optaram decididamente pelo caminho da concentração e da produtividade industrial, por vias expressas e pelos armamentos. O que esses regimes buscavam era uma modernidade alternativa: uma sociedade tecnicamente avançada, na qual as tensões e as cisões da modernidade houvessem sido sufocadas pelos poderes fascistas de integração e de controle.
Um grande problema das imagens convencionais do fascismo é que enfocam os momentos mais dramáticos do seu itinerário e omitem a textura sólida da experiência cotidiana, e também a cumplicidade das pessoas comuns no estabelecimento e no funcionamento dos regimes fascistas. Eles jamais teriam crescido sem a ajuda das pessoas comuns, mesmo das pessoas convencionalmente boas.
O fascismo era uma invenção nova, criada a partir do zero para a era da política de massa. Ele tentava apelar sobretudo às emoções, pelo uso de rituais, de cerimônias cuidadosamente encenadas e de retórica intensamente carregada para convencer ela.
O fascismo não se baseia de forma explícita num sistema filosófico complexo, e sim no sentimento popular sobre as raças superiores, a injustiça de suas condições atuais e seu direito a predominar sobre os novos inferiores. O fascismo não repousava na verdade de sua doutrina, mas na união mística do líder com o destino histórico de seu povo, idéia essa relacionada às idéias românticas de florescimento histórico nacional e de gênio individual artístico ou espiritual, embora, em outros aspectos, negasse a exaltação romântica da criatividade pessoal desimpedida.
Os intelectuais dos primeiros tempos exerceram influências importantes e de diversos tipos. Em primeiro lugar, ajudaram a abrir espaço para os movimentos fascistas, enfraquecendo o apego das elites aos valores do Iluminismo, até então amplamente aceitos e aplicados de forma concreta no governo constitucional e na sociedade liberal. No fim, os intelectuais ajudaram a pôr em marcha uma transformação emocional de dimensões sísmicas, na qual a esquerda deixava de ser o único recurso para os ofendidos e para aqueles inebriados por sonhos de mudança.
Cada movimento fascista, dá expressão plena a seu próprio particularismo cultural. Diferentemente dos outros “ismos”, não é um produto de exportação: cada movimento guarda ciumentamente sua receita de renascimento nacional, e os líderes fascistas parecem sentir pouco ou nenhum parentesco com seus primos estrangeiros.
Os fascismos que conhecemos chegaram ao poder com o auxílio de ex-liberais amedrontados, tecnocratas oportunistas e ex-conservadores, e governaram conjuntamente com eles, num alinhamento mais ou menos desconfortável . Acompanhar essas coalizões verticalmente, ao longo do tempo, como movimentos que se transformaram em regimes; e horizontalmente, no espaço, à medida que elas se adaptavam às peculiaridades dos ambientes nacionais e às oportunidades de momento, exige algo mais elaborado que a tradicional dicotomia movimento/regimes.